sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Como "Viver a Vida" - Avalanche de informações e suas consequências

Nietzsche escreveu:
Digo lhes: é preciso ter caos dentro de si mesmos a fim de dar luz a uma estrela dançante. Digo lhes: vocês ainda tem caos dentro de vocês.


Eu me pergunto o que eu gostaria de ser, ter ou fazer com os restos dos meus dias de vida. Eles podem ser muitos ou bem pouco. Mesmo quando se pensa em quantidade, não se mensura em qualidade. Mil anos mal vividos, não vale um piscar de um olho que pode ser uma experiência de 9 dias. Por sinal, esse não é um número exato. É apenas o número de dias das minhas últimas férias na Chapada Diamantina e o mesmo número de dias de alguns cursos para o desenvolvimento humano. 
Podem ser tantos os dias entre essas experiências que fazem a vida valer a pena. A rotina parece o movimento de um parafuso. Gira no mesmo lugar e cada vez, mais apertado. Como preencher o vazio da existência? Seria esse o motivo pelo qual uma pessoa consome tanta informação (TV, filmes, musica, rádio, internet, games, jornais, revistas e telefone)? 

A vida pode ser muito difícil. Escolhas a se fazer. Ou mesmo, não fazer nenhuma escolha e deixar as ações se sucederem. Interessante, isso também é uma escolha. Não assumir um compromisso, não colocar intenção e nem energia em algo que se quer, também é uma escolha.  Logo, alguém discorda e mostra as estatísticas. 

Maceió, por exemplo, passou Recife e Rio de Janeiro em numero de mortes por arma de fogo. 12 conhecidos restaurantes da cidade, durante o funcionamento, foram assaltados no mês de janeiro de 2010.  Assaltos são freqüentes nas ruas e também acontecem em praias desertas, a principal é Carro Quebrado (Praia dos Morros/Barra de santo Antonio). Qual é a reação da ex pacata cidade? Onde há 15 anos atrás se podia andar tranqüilamente pelas ruas. O que a população pode fazer? Assistir TV passivamente? Quais os instrumentos democráticos que asseguram a população os seus direitos?

Democracia hoje soa como demagogia. O termo não é valorizado como deveria. Caiu em descrédito assim mesmo como a palavra direito. A musica, sempre, a de pior qualidade é colocado no volume que ofereça o maior incomodo possível. Isso não é apenas falta de respeito, isso é uma afronta ao direito e a democracia. Não podemos ser obrigados a consumir. Temos o direito de escolha. Mas isso está fora de moda, está adormecido. 


"Quem tolera tudo, não se importa com nada" (Rubem Alves)


A arte contribui para girar o parafuso no sentido oposto. Em vez de apertar, girar folgando, criando espaço e liberdade. Sai-se da situação problema e se encontra um possível espaço solução. Leci Brandão escreveu a musica Zé do Caroço. 



No serviço de auto-falante
Do morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira

Aí como eu queria que fosse em mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira

Mas é o Morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira
Distrái toda gente com a sua novela

É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira

Lelelelê Lelelelelelelelelê
Lelelelê Lelelelelelelelelê



Com o objetivo de contribuir com liberdade e um consumo de informações mais consciente. Foi posto nesta postagem diferentes conteúdos para esse alerta. Eles demonstram uma relação entre o comportamento do grupo e as crenças e valores (conhecimento) dos indivíduos. Veja o quadro da Matéria da revista Super Interessante sobre a avalanche de informação pesquisada pela Universidade de Berkeley e ao final o texto do Leandro Vieira da Você S/A.
Não faço apologia contra nenhuma programação, pois é possível se ter o direito de escolha e não assistir ou assistir com consciência da sua escolha. Contudo, com crianças e adolescentes, essa postura não é possível. Veja os ciclo de Ação e de Conhecimento. Mesmo que algumas criança não assistam a TV, as "manias/modas" da programação chegarão ao contato delas por meio do comportamento de outras crianças ou pessoas que consomem essa programação. Dessa maneira, a avalanche de lixo pode ser bastante prejudicial a sociedade. Os valores e crenças podem serem corrompidos e a mediocridade de comportamento se tornar ainda mais generalizada.


A minha alma tá armada
E apontada para a cara
Do sossego
Pois paz sem voz
Paz sem voz
Não é paz é medo

Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero
Conservar
Para tentar ser feliz 

(O Rappa)


O caos pariu uma colcha de retalho nesta postagem. Nela há  estrelas dançantes. O leitor poderá conhecer as idéias brilhantes de Maslow, Falconi, André Leite Alckimin, Caeiro, Leandro Vieira, pesquisadores da Universidade de Berkeley, enquanto assimila a mútua influência entre o comportamento do grupo e as crenças e valores (conhecimento) dos indivíduos e como elas podem ser atingidas pela mídia e TV.

A pirâmide de Maslow vai servir ao propósito de explicitar uma idéia base, no seu primeiro degrau - o valor de pertencer a um grupo. 



Maslow define um conjunto de cinco necessidades descritos na pirâmide.
  • necessidades fisiológicas (básicas), tais como a fome, a sede, o sono, o sexo, a excreção, o abrigo;
  • necessidades de segurança, que vão da simples necessidade de sentir-se seguro dentro de uma casa a formas mais elaboradas de segurança como um emprego estável, um plano de saúde ou um seguro de vida;
  • necessidades sociais ou de amor, afeto, afeição e sentimentos tais como os de pertencer a um grupo ou fazer parte de um clube;
  • necessidades de estima, que passam por duas vertentes, o reconhecimento das nossas capacidades pessoais e o reconhecimento dos outros face à nossa capacidade de adequação às funções que desempenhamos;
  • necessidades de auto-realização, em que o indivíduo procura tornar-se aquilo que ele pode ser: "What humans can be, they must be: they must be true to their own nature!".
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Em destaque as necessidades sociais, tal como pertencer a um grupo ou fazer parte de um clube. O grupo de iguais, ou de ajuda, é muito importante em atividades terapêuticas (AA, vigilantes do peso etc) e na vida como um todo (grupo de trilhas, Mountainbike, Vela, Clube de poesia etc). A alegria é algo individual, mas é muito mais radiante quando é compartilhada.

Falconi, o expoente maior da implementação da Qualidade Total nas empresas, ressalta uma maior importância no Brasil das NECESSIDADES SOCIAIS. Ele chega a propor que esse conjunto esteja um nível acima ao do Conjunto ESTIMA. Ou seja, os gerentes e administradores precisavam de fato estarem atentos aos grupos sociais nas empresas. 

O Bernd Isert, trainer de Coachs da Alemanha, acrescenta o nível PERTENCER aos Níveis Neurológicos da PNL.

ESPIRITUAL
PERTENCER
IDENTIDADE
CRENÇAS
CAPACIDADES
COMPORTAMENTOS
AMBIENTE


modelo antigo dos Níveis Neurológicos










modelo em alemão dos Níveis Neurológicos

Esse acréscimo aos Níveis Neurológicos da PNL é um ajuste, pois o o antigo modelo seguia o "pensar americano" muito baseado no Eu e ainda não tinha assimilado as descobertas dos trabalhos de Constelações Familiares do Bert Hellinger. O novo nível localiza-se acima da identidade e abaixo do espititual.

O PERTENCER é um dos fundamentos das Constelações Familiares. Metaprincípios e hipóteses fundamentais no trabalho de constelação:

1) Reconhecer o que está dado. O que deve ser aceito como realidade?
2) Equivalência da filiação - direito a filiação? Quem faz parte?
3) Principio da ordem temporal. Quem é que estava antes? Quem veio depois?
4) Compensação de dar e receber? 
 - Primazia do maior engajamento (responsabilidade pelo todo)
 - Princípio da primazia da competência (eficácia) Quem é mais eficiente para quê? (rendimentos e capacidade)
Intervenções Separadoras e Conectoras
- Separação do que está misturado
- Inclusão do que está excluído


André Leite Alckimin, um dos maiores experts do Brasil, explicou as transformações na Rodhia que se iniciaram em 1990 com os ciclos de Conhecimento e em seguida com os Ciclos da Ação. 

Uma das linhas do Budismo faz o mesmo procedimento. Alterna os dias de ensinamentos (conhecimento) com os procedimentos de meditação e diversas outras ações. Assim, ao lado do Mestre, o praticante tem a chance de verificar o seu sistema de crenças e valores, e por em prática os ensinamentos, como também aprender com a prática. Paralelo a esses aprendizados, ocorre o através do comportamento do grupo.





Pronto, a partir desse ponto. O link se faz com a reportagem da revista super interessante. A pesquisa é da Universidade de Berkeley (How much information 2009). Sabia-se que era muita informação, mas não se sabia que o numero era tão grande. A avalanche de informação que nos leva a ler ou ouvir mais de 100 mil palavras por dia. Isso equivale a uma bíblia por semana.



Alguns perguntas são importantes sobre essa avalanche.
1) Quais são as conseqüências de se consumir tanta informação? 
2) Qual é a qualidade dessas informações? 
3) Qual é a contribuição delas ás crenças e valores?
4) Qual é a contribuição delas para as Ações dos individuos e grupos na sociedade? 
5) Como o individuo se sente em relação ao grupo e o que ele é capaz de fazer para se filiar a um grupo?
6) o que acontece com o individuo, quando ele se sente excluído de pertencer a um grupo.

1) Esta primeira pergunta tem uma vasta possibilidade de resposta. Um poeta, como o Alberto Caeiro, talvez possa responder. Contudo, partindo de uma conseqüência da frenética avalanche mental, a qual os seres a consomem sem pausa. Estes se sentem desconectados com o corpo e suas próprias sensações. É só lembrar a razão e a quantidade de pessoas que procuram fazer yoga, meditação, esportes ao ar livre e processos de desenvolvimento pessoal. Sem falar de artifícios para sentirem o corpo e ou calar sensações. Lembrar o uso exagerado de comida, álcool, drogas e sexo 

Outros meios colaboram com a conexão com o corpo, com as sensações e com  dissolução da avalanche mental: Constelações Sistêmicas e integrativas, The Reconnection ou as DEEKSHAS (Benção da Unidade), como também a Seção 2 do Curso Avatar.


Ainda nesta primeira pergunta, é importante ressaltar o contato com a natureza. Simplesmente estar na Natureza ou praticar alguma atividade, desenvolve a percepção do corpo e a sensibilidade. Esportes como surfar, velejar, fazer trilhas entre outros colaboram com o desenvolvimento dessa sensibilidade e integração do homem a um todo maior.

Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos
IX






Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.


Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
X
"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"


"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"


"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."


"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."

5
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei.Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas?Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica?Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


2) O segundo ponto é a qualidade da avalanche de informações que nós consumimos. O perigo está na mensagem, repetida diariamente à exaustão. Há o ditado popular: agua mole em pedra dura, tanto bate até que fura. 

Veja como o Leandro Vieira da Você S/A na citação abaixo (a), descorre como facilmente as novelas ditão novas normas, valores e costumes. Logo, essas mudanças afetam o ciclo do conhecimento: as mensagens repetidas ou com forte impacto podem contribuir com a mudança da nossa maneira de pensar, ajudando a mudar o comportamento do grupo. 

Como também, os costumes, a moda e maneiras de falar são alterações nas maneira de agir (ciclo do ação)Logo, essas mudanças afetam o ciclo da ação: a mudança da maneira de agir (o comportamento do grupo), ajuda a mudar a nossa maneira de pensar. 

Os 2 ciclos (do conhecimento e da Ação) se sucedem nas maneiras de agir do grupo (comportamento do grupo) e os valores e crenças dos indivíduos. Então, os meios de informação contribuem com a mudança da sociedade, e esta, se realimenta por meio do comportamento do grupo reforçando as mudanças das crenças e valores. 

Essa é a chave da questão. Como não ser contaminado por esse processo? Desligar a televisão é a saida? Selecionar o que se vai consumir? Mesmo assim, os amiguinhos da escola dos filhos, ou os amigos da faculdade, do trabalho são afetados pelo comportamento do grupo, logo o grupo afeta o meu comportamento também. Em seguida, as crenças...

A solução seria "forçar" uma melhoria no nível da programação das TVs? Como isso poderia ser feito? Mas o publico atual interessado em pão e circo gostaria de uma TV de qualidade? Há exemplos da TV Cultura, desde a programação infantil até a adulta que prova a existência de público para programas de qualidade.

Em um quadro geral da educação, os níveis de desempenho se encontram baixos. O hábito de leitura é muito pequeno. As Escolas e o sistema educacional ensinam as respostas para o vestibular, não formam uma capacidade de reflexão e nem cidadões. Como formar cidadões? Como podemos formar uma sociedade mais justa e democrática? Reflexão? Autoconhecimento? É possivel?  O que podemos fazer?

a) A qualidade das Novelas do BLOG DO LEANDRO da VOCÊ S/A. http://vocesa.abril.com.br/blog/leandro/2010/01/20/como-viver-a-vida-segundo-a-globo/





É fato: as novelas da Globo e seus programas de grande audiência continuam ditando normas, valores e costumes. Volta e meia ouvimos alguém soltar famosos bordões como “hare baba”, “tô certo ou tô errado?”, “né brinquedo não”, “ishalá”, e outros consagrados pelos folhetins globais.





Antes que alguém levante a mão para perguntar, esse texto tem, sim, muito a ver com Administração. Qualquer evento que influencie, direta ou indiretamente, o nosso comportamento é extremamente importante para a forma como conduzimos os nossos negócios. Não é à toa que os grandes anunciantes disputam a peso de ouro o horário nobre da televisão brasileira – bem como os próprios atores. Da mesma forma, as grifes (re)direcionam suas coleções aos estilos exibidos pelas belas e influentes atrizes das novelas, mesmo que essas se passem em lugares exóticos como Índia e Marrocos, ou genuinamente brasileiros como Barretos, Rio e São Paulo. Até pouco tempo atrás, muitas moças estavam usando parte do sutiã à mostra, para imitar o modelito de Norminha, a simpática – e faceira – personagem interpretada recentemente por Dira Paes. Novelas ditam modas e, como administradores, devemos estar atentos.
Espanta-me essa última, que traz o curioso título de “Viver a Vida”. Apesar de apresentar depoimentos emocionantes de pessoas reais que superaram grandes problemas no final dos episódios, Viver a Vida dá um show de deturpação de valores do começo ao fim de cada capítulo.
Normalmente, as obras de ficção dividem claramente as pessoas entre boas e más, o certo e o errado são evidentes, e nos colocamos a torcer pelo sucesso do protagonista e o castigo dos vilões, como o fizemos em A Favorita, com o duelo entre Donatela e Flora.
Na novela de Manoel Carlos, esse dualismo não existe. Com a desculpa de aproximar seus personagens da realidade, o autor lhes confere virtudes e defeitos. Entretanto, paira um ar de normalidade sobre todas as safadezas cometidas pelos personagens, que eu chego a me perguntar o que ele quer dizer, realmente, com “viver a vida”.
Viver a Vida é uma novela onde praticamente todos os personagens enganam uns aos outros. O marido trai a esposa com a prima dela, a esposa trai o marido com o cara da academia, o outro troca a companheira de uma vida inteira por uma modelo 30 anos mais jovem , que agora já vive um affaircom o sujeito que conheceu no meio do deserto (que corre o risco de ser filho de seu próprio marido), irmãos (gêmeos!) disputam a mesma garota… ufa! E tem muito mais, mas não quero tirar a paciência do leitor com essas picuinhas.
Onde mora o perigo?
Diversos estudos, em especial os conduzidos pelo Prof. Robert B. Cialdini, da Arizona State University, demonstram que temos uma grande tendência a fazer o que a maioria faz – mesmo que seja um comportamento socialmente indesejável. Segundo Cialdini, somos naturalmente maria-vai-com-as-outras*.
Manoel Carlos gasta o seu latim para provar que trair é algo normal, que todo mundo trai todo mundo e não há nada reprovável nisso. Pelo contrário: é até algo bonito, poético. As puladas de cerca ocorrem sempre com o belíssimo pano de fundo da cidade maravilhosa ao entardecer, do alto de uma asa delta, ou nas areias paradisíacas de Búzios, ao som de uma belíssima trilha sonora. Sei lá, sei lá…
Há algum tempo, havia em minha cidade um jornalzinho que circulava entre os colégios, cuja maior atração eram os recadinhos que os alunos postavam uns para os outros. Depois que Aline Moraes interpretou uma jovem lésbica em uma novela, houve uma explosão de recados (românticos) de garotas para garotas. Não estou fazendo juízo de valor no que diz respeito às escolhas sexuais de ninguém. Entretanto, desconfio que muitos desses recados não tinham nada a ver com a sexualidade dessas garotas. Elas apenas queriam ser a Aline Moraes… Imagino que, se a personagem da bela atriz fosse interpretada por Regina Casé, o efeito no jornal teria sido nulo ou completamente inverso.
Mesmo sabendo que o comportamento é uma potente fonte de influência social, geralmente as pessoas que participam de estudos de psicologia social dizem com veemência que o comportamento alheio não influencia o seu próprio. Você aí do outro lado também deve estar dizendo que isso é uma grande besteira, que você não é influenciado por novelas, nem por ninguém. Beleza. Mas, com certeza, você conhece um monte de gente que adora seguir a maioria.
O perigo está na mensagem, repetida diariamente à exaustão, justamente no horário em que a maioria dos televisores sintoniza a rede do plim-plim. Muita gente assimila o comportamento dos personagens como adequado, moderno e normal. A novela de Manoel Carlos é a receita para o fracasso de uma sociedade que tem (ou já teve?) na família o seu mais firme alicerce. Viver a vida, de verdade, é muito mais do que isso. Tô certo ou tô errado?












Leitura recomendada
* Não deixe de ler o brilhante artigo de Rodolfo Araújo onde ele explora o Princípio da Aceitação Social “(…)todo mundo gosta de se sentir integrado à sua comunidade, ou de pertencer a algum grupo. Suas atitudes deverão, sempre que possível, refletir esse sentimento e essa necessidade“.
** Leia também o livro Família Acima de Tudo, onde Stephen Kanitz fala sobre a importância da família.
Escrito por leandrovieira em: Blog do Leandro



PS: Noticia do Estadão do dia 05/02/2010: olhar uma obra de arte melhora o estado de espírito. Além de cultura, é saúde. Que tal ir ao museu no fim de semana? Eita, vai ter carnaval em quase tudo que é canto. Carnaval é arte?

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