segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Facebook is Not a Social Network

Facebook is Not a Social Network, it’s an Operating System: Gerd Leonhard on the Social Consumer

Quick 10 point summary and embed of a useful presentation by The Futures Agency‘s Gerd Leonhard on the rise of the social consumer.  It’s big picture, thought provoking stuff:
  1. Technology takes power from brands and retailers and puts it in the hand(sets) of consumers.  Connected everywhere, empowered everywhere, and distracted everywhere – the new consumers are ‘people of the screen’ – a mobile video-generation and a real-time people-media network
  2. It’s the framework which changes with new technology and not just the picture within the frame.’ (Quote to remember from Marshall McLuhan): Technology has converged online and offline worlds – we now live in one hyper-connected networked and cloud-powered world
  3. This means marketing and media are no longer about reach and distribution – they are about attention – increasingly measured in “Likes” (how much would you pay for someone’s attention stream?)
  4. Doing business with the new consumer is not a technology play, it is a culture play – marketers must build on emerging cultural practices, not emerging technology. Key to these emerging practises are social consumptionsocial transparency (the tyranny of transparency), social trust and the use of social currency (FB Credits)
  5. Doing business with the new consumer is not a technology play, it’s a people play; technology will never replace people; people who use technology will replace people who don’t.  The thing about people is that they are social – and they share; sharing should be hardwired into your value proposition – building share-ability into what you say and do (‘social brand actions’). And from this humanistic perspective, communicating why you do what you do is as important as explaining what you do and how you do it
  6. Doing business with the new consumer is not a technology play, it’s a content play – businesses must become publishers as well as producers – connecting consumers to ‘likeable’ (filtered/curated) content as well as producing likeable products
  7. In the new framework, Facebook is not a network, it’s a social OS enabling and empowering social action
  8. To help businesses profit from the social OS, agencies must become proficient in the 5Cs –contextualising, connecting, curating, culling and collating
  9. As a social OS, Facebook is the premier platform for social commerce – social commerce is the “new normal” – adding a social layer to retail will become a hygiene factor for successful commerce
  10. The simple success formula for operating on the Social OS – create more value than you capture (Tim O’Reilly)
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Democracia e Religião

JORNALISMO LAICO

Depois da Guerra Fria, a Guerra Santa

Por Alberto Dines em 23/08/2011 na edição 656


A questão religiosa está nas manchetes, capas, telinhas e monitores da mídia mundial. Há mais tempo, com mais destaque e mais espaço do que a crise econômica mundial (formalmente iniciada em setembro de 2008) e os conflitos bélicos propriamente ditos.
O mapa-múndi contemporâneo é na realidade um registro cartográfico das fogueiras acesas depois da queda do Muro de Berlim. O fogo sagrado inviabiliza o Afeganistão (Ásia Central), divide a dividida Indonésia, inflama o Irã, sangra o Iraque e todo o Oriente Médio (Israel inclusive), espalha-se pelo Magreb, vai ao centro da África, cruza o Mediterrâneo, volta a se aninhar no habitat natural da Península Ibérica, infiltra-se em quase toda a Europa, Países-Baixos, Escandinávia (o Massacre de Oslo foi um pogrom religioso), atravessa o Atlântico e instala-se no sistema linfático dos Estados Unidos. A América Latina não escapa da grande conflagração embora os adversários (católicos e protestantes) identifiquem-se como soldados de Cristo.
Esclarecimento, ponderação
Não se trata de um enfrentamento litúrgico ou teológico, Deus não está em discussão, nem a conquista territorial dos Estados conflagrados como aconteceu na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O objetivo das cruzadas do século 21 é a conquista dos corações e mentes (mais aqueles do que estas) dentro desses Estados.
O que estamos testemunhando sem perceber não é o “choque de civilizações” como o previu Samuel P. Huntington, mas uma tentativa de paralisar o processo civilizacional que marca a humanidade há alguns milênios. Gigantesca guerrilha política, a primeira no gênero, verdadeiramente global, disfarçada em conflito confessional com o objetivo de trocar o ser humano pleno, soberano, em mero adorador de imagens e rituais.
A consagração da sinistra Michele Bachman, a verdadeira feiticeira de Salem, como líder do Tea Party (ou Hate Party, dá no mesmo) liquida o conservadorismo político americano e obriga os republicanos – todos os republicanos – a se aproximarem de uma forma ou de outra da arcaica Ku-Klux-Klan.
Em Madri, o papa Bento 16 diante da maior concentração religiosa na história do país adverte energicamente aos jovens que foram ouvi-lo na Jornada Mundial da Juventude que só existem duas opções de vida: casar-se ou ingressar em conventos. Sua Santidade não explicou o que devem fazer aqueles que não querem ou não podem se casar e os que recusam encarcerar-se numa ordem religiosa. Suicidar-se ou cair na gandaia?
As Organizações Globo declaram-se laicas em seus Princípios Editoriais, mas não conseguiram cobrir – de forma isenta ou engajada – o que se passou na Espanha antes, durante e depois da visita do papa. Apenas a Folha de S.Paulo, nos minguados espaços entre colunas assinadas e anúncios de imóveis, ofereceu uma pálida idéia das manifestações em defesa do Estado secular na Espanha.
Laicismo não é sinônimo de omissão. Jornalismo laico é obrigatoriamente esclarecedor, ponderado, ajuizado. Sobretudo tolerante. Defender o Estado secular não significa investir contra as religiões ou crenças, queimar templos, livros sagrados ou desrespeitar devoções. Significa apenas defender o Estado de Direito democrático e isonômico.
Mais luz
O mundo maometano fragmenta-se irremediavelmente: a divisão entre xiitas e sunitas ultrapassou a rivalidade entre seitas e dinastias que conflitam há 1.500 anos. Gerou um processo incontrolável de disputas e fragmentações menores que, longe de pacificar o Islã para fortalecê-lo, sangra-o em batalhas fratricidas perenes. O Islã surgiu como um processo conciliador – isso precisa ser mostrado ao leitor, ouvinte, telespectador.
O Estado de Israel foi criado a despeito da oposição da maioria dos religiosos ortodoxos que só admitiam a Redenção pelas mãos do Messias. O fundamentalismo religioso judaico está corroendo não apenas os fundamentos da democracia israelense como os do próprio sionismo. Nas comunidades judaicas da Diáspora o apoio aos governos de Israel deixou de ser automático, natural. Isto é bom para revitalizar os fundamentos éticos e culturais do judaísmo. E quem O Globo designa para opinar sobre o Oriente Médio na sua nobre página de opinião? O cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro, religioso, declaradamente de direita.
Os movimentos desta Guerra Santa Mundial precisam ser detectados e explicados, senão nas apressadas edições diárias, pelo menos nos fins de semana. O jornalismo impresso entrou em decadência porque voluntariamente abriu mãos das suas vantagens intrínsecas.
Um jornalismo laico como o preconizado nas diretrizes das Organizações Globo pede mais luzes, mesmo que hoje o Iluminismo seja confundido com uma marca de lâmpadas.

Democracia e Censura

A tentação da censura

No último dia 11, o premiê britânico, David Cameron, foi a público reclamar das mídias sociais. Sua frase: “O fluxo livre de informação pode ser usado para o bem mas também para o mal”. Ele cogitou bloquear acesso às redes para impedir mais saques. Não o fez. Quem o fez foi a polícia do Bart, metrô de San Francisco, na Califórnia. Bloqueou acesso aos celulares pelos passageiros para impedir que se comunicassem para organizar um protesto. Às vezes, a censura vem de onde menos se espera.
Cameron está certo: comunicação, digital ou não, pode ser usada para o mal. Temos uns 12.000 anos de história desde que o homem começou a viver em cidades e uns 3.800 desde que o rei babilônico Hammurabi apresentou suas leis de convívio social por escrito. Já se pensou muito sobre o assunto, já se viu de tudo. Protestos no metrô e uns dias de saque são, no mínimo, motivo fútil para coibir liberdades.
Não é que o direito à livre expressão seja absoluto. Nem o mais radical dos filósofos pró-liberdade achava isso. Era John Stuart Mill. (Britânico, diga-se, nascido em Londres como Cameron.) Mill não considerava que existissem ideias que devessem ser proibidas de circular. Ele via, apenas, que em algumas circunstâncias certas ideias extremas podem ser ruins. Desejar a morte de alguém numa conversa informal é de mau gosto. Pedir a morte de alguém perante uma massa em fúria na frente da casa do sujeito periga terminar com sua morte de fato. O contexto faz toda a diferença.
Alegação pífia
Mill tinha medo era de governo e de uma ditadura da maioria. Coisa de inglês de fins do século 19, no processo de inventar o que são nossas democracias modernas. As liberdades de qualquer um falar o que pensa e de qualquer grupo se organizar são o melhor antídoto para ambos.
Mesmo que a maioria pense diferente, um conjunto minoritário tem o direito de discordar. Sociedade livre é assim. Se governos são necessários para garantir essa liberdade com todos seus instrumentos, que vão da polícia ao acesso a hospitais e educação, eles também são uma constante ameaça. O governante tem poder. Uma hora, todos eles sentem aquela vontadezinha de coibir a conversa. Acontece com mais frequência entre os Chávez e Mubaraks do mundo. Premiês britânicos são também suscetíveis. E se sentem mal compreendidos quando alguém acusa o golpe.
Não há dúvidas de que houve crime cometido por saqueadores nas cidades inglesas. Cortar o acesso a redes sociais ou a telefones celulares pune todo mundo. Em situações extremas, esse tipo de medida pode impedir que gente se fira. Mas nem a monarquia ou o Parlamento estiveram ameaçados, o Estado de Direito permaneceu em pleno funcionamento.
Cameron só ameaçou. Na Califórnia foi pior. Há três anos, a polícia do metrô que interliga San Francisco às cidades vizinhas matou um cidadão desarmado. Quando o policial responsável foi absolvido pela Justiça, um grupo decidiu reclamar. Para impedir o protesto, alegando segurança, a mesma polícia do Bart cortou acesso às antenas de celular do subterrâneo. Todos os dias, centenas de milhares utilizam aqueles trens, incluindo gente que mora em San Francisco e trabalha no Vale do Silício. Logo onde.
Um meio, apenas
EUA e Reino Unido, com a França, inventaram o que chamamos de democracia. Sim, houve e há muita criança trabalhando em chão de fábrica, muita gente excluída. A História do mundo foi toda assim. O que essa mistura de democracia e capitalismo construiu lentamente, no entanto, foi um sistema que vai se moderando, se consertando, se ajustando. Põe prato de comida na mesa de gente pobre e cria novidades num ritmo acelerado.
John Stuart Mill tinha razão: por pior que seja a mensagem, tudo começa com a garantia de que podemos conversar, nos reunir e nos responsabilizar pelas consequências de nossos atos. Perante o crime há Justiça. Da próxima vez que alguém na Síria ou China cortar acesso à internet, dirá com cinismo que tem limite, e no Ocidente há quem concorde.
A tecnologia é só um meio. Mill também tinha razão em temer o ditadorzinho na barriga de todo governante.
***
[Pedro Doria é colunista de O Globo].

Notas sobre Lars Von Trier


Primeiramente, essas notas não são sobre a pessoa, e sim sobre a obra desse cineasta. Elas são evidências de algo que se passa na cabeça dele. É muito simples taxar o cineasta de alguma coisa, sem um conhecimento mais aprofundado. Para mim, foi importante ter assistido ao "As 5 obstruções". Assim arrisco uns palpites sobre a obra e a importância dela para os seres humanos.




Dogville é o TROPA DE ELITE dinamarquês.
A Grace (Nicole Kidman) tinha a intenção de educar.
A educação não foi compreendida.


Em Manderlay, a aula sobre democracia é realmente ministrada.
A critica aos americanos, na verdade é a todo um conjunto filosófico e econômico surgido muito tempo antes, no séc XVII, na Inglaterra, Escócia e Irlanda. Em vez de personificar um país ou povo, podemos perceber que esse sistema de crenças nasceu ainda antes da queda da bastilha. 


A Grace em Mandelay (continuação de Dogville) parece ainda mais com uma consultora organizacional. Talvez, você conheça alguma pessoa que queira mudar o mundo.

Temos muito tempo de outras coisas que não são Democracia. Somos ainda muito jovens num ideal de governo para o benefício dos seres humanos. No Brasil, esse tema ainda é um bebê. Veja a reportagem abaixo do Bauman


O Grande Chefe mostra a manipulação de emoções por parte de um gestor. Mais uma vez o sistema filosófico e as práticas sociais são trazidas a tona. Contudo, isso é muito pouco. O filme mostra toda uma relação entre diretor e atores, diretor arte e publico. 


Melancolia é uma homenagem a vida. Um brinde a vida!


Melancolia expugna práticas sociais e pensamentos execráveis.


Como em qualquer catástrofe, não temos o que fazer e nem choramingar. É um acontecimento natural. A morte acontece e vai acontecer a qualquer um. Um outro mundo é possível nem que seja dentro de uma cabana mágica.

O absurdo é a banalização da importância da  vida, dentro desse sistema filosófico de vida e suas práticas sociais. Como neste dado momento, onde temos tanto conhecimento e informação, tantas pessoas estão com fome, outras sendo assassinadas, outras com a dor de perder seus instrumentos de trabalho ou de se expressar (tinha que falar da minha máquina fotográfica com as 2000 fotos da Patagônia Chilena e Argentina roubada na Bolívia em JAN de 2011), outras vivendo apavoradas ou com medo da vida urbana. A esse mundo execrável, a melhor solução é o fim dele. Quem vai sentir falta desse mundo? Os únicos que podem responder "sim" a essa pergunta, são aqueles que se beneficiam dessa desigualdade. 

O desafio é encontrar uma forma, um meio, os caminhos para esse ideal. Nós que trabalhamos com o desenvolvimento de seres humanos, nós os educadores, nós os artistas que questionamos e confrontamos a cultura, nós os seres espiritualizados, nós, eu e você, todos estamos junto nessa jornada de transformação.


Enquanto, escrevo esse post, imagens dessa semana de agosto de 2011 (a charge do Carlos Latuff sobre a Líbia; as manifestações da população oprimida em Londres com pessoas do governo defendendo o uso de censura na internet e uso de força militar; o assassinato da juíza do Rio, e os escravos encontrados, pela A Liga da Band, nas confecções terceirizadas da Zara boutique e nas construções de escola terceirizadas pelo governo em São Paulo) passam pela minha mente.  



Viver nesse mundo execrável é muito difícil. Mas eu tive um dia sensacional com pessoas especiais que me inspiraram escrever essas notas. Pequenas gotas num lago, um dia o encherá. Paciência, infinita paciência. Amor, infinito amor. Esse sistema demorou algumas centenas de anos para si tornar isso, mas as transformações ainda continuam. Há melhoras. Há milagres surpreendentes. O aqui e agora, neste planeta, ainda é o melhor lugar para viver e celebrar a dadiva da vida. Um brinde!






segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Zygmunt Bauman e a Felicidade (30 minutos de vídeo)

A entrevista passa por vários pontos chaves: projeto de vida, a felicidade, a identidade, o mal-estar de Freud, democracia, etc.



Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman from cpfl cultura on Vimeo.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Os problemas de pensar que o sucesso é ser feliz


Meu filho, você não merece nada
A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
ELIANE BRUM
   Divulgação
ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê(Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua(Globo). 
E-mail: elianebrum@uol.com.br Twitter: @brumelianebrum
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
 
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.

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